Degradação de pesticidas orgânicos em objetos etnográficos contaminados utilizando radiação ionizante
- ICR Pachamama
- 9 de abr.
- 2 min de leitura
A presença de pesticidas em bens culturais é um dos desafios mais persistentes — e muitas vezes invisíveis — enfrentados por profissionais de museus, conservadores e pesquisadores. Aplicados ao longo do século XX como uma solução eficaz contra pragas, esses compostos deixaram um legado tóxico que hoje compromete não apenas a integridade dos materiais, mas também a saúde de todos aqueles que lidam com esses acervos.
É nesse contexto que se insere a recente tese de doutorado de Ana Carolina Delgado Vieira, agora disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, na qual investiga o uso da radiação ionizante como estratégia de descontaminação de objetos etnográficos.
🔗 Acesse a tese completa:https://teses.usp.br/teses/disponiveis/85/85131/tde-09042026-084912/
O problema: um legado invisível e persistente
Durante décadas, pesticidas organoclorados e piretróides sintéticos foram amplamente utilizados em coleções museológicas por meio de pulverização, fumigação e aplicação direta. Embora eficazes no controle de infestações, esses produtos permanecem nos materiais por longos períodos, representando riscos químicos contínuos.
Hoje, essa contaminação coloca em evidência questões centrais para a conservação contemporânea: segurança ocupacional, acesso às coleções e, inclusive, os desafios éticos relacionados à circulação e restituição de objetos culturais.

Objeto plumário sendo manipulado com luvas para proteção. Imagem IA.
A proposta: radiação gama como ferramenta de mitigação
A radiação gama, já utilizada em contextos de desinfestação, vem sendo investigada como uma técnica capaz de degradar compostos orgânicos tóxicos sem comprometer a integridade dos materiais.
Neste estudo, materiais-modelo representativos de coleções etnográficas foram artificialmente contaminados com pesticidas e posteriormente irradiados com uma dose de 30 kGy no irradiador gama multipropósito de Cobalto-60 do IPEN-CNEN/SP.

Irradiador gama multipropósito de Cobalto-60 do IPEN-CNEN/SP em São Paulo
Para avaliar os efeitos do tratamento, foram utilizadas diferentes técnicas analíticas, incluindo:
Cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS)
Espectroscopia FTIR-ATR
SERS (espectroscopia Raman amplificada por superfície)
Microscopia eletrônica de varredura (MEV)
Colorimetria
Além disso, foram comparadas duas condições de irradiação: seca e úmida.
Resultados: alta eficiência e preservação material
Os resultados demonstraram taxas de remoção de pesticidas que chegaram a 100% em alguns casos, dependendo do composto e do tipo de material.
Do ponto de vista da conservação, um aspecto fundamental foi observado:👉 não houve alterações significativas na cor ou na morfologia dos materiais analisados.
Entretanto, a comparação entre condições experimentais indicou que a irradiação em condição seca é mais segura, uma vez que a presença de umidade pode intensificar processos de degradação secundária nos substratos.
Contribuições para a conservação de acervos
Os achados desta pesquisa reforçam o potencial da radiação gama como uma ferramenta viável para a mitigação de contaminantes químicos em bens culturais. Mais do que uma solução técnica, trata-se de uma abordagem que dialoga com desafios amplos da área, como:
a proteção da saúde de profissionais
a viabilização do acesso seguro às coleções
a ampliação das possibilidades de pesquisa
e o enfrentamento do legado histórico de práticas de conservação passadas
Ao trazer evidências experimentais, este trabalho contribui para consolidar o uso da radiação ionizante como uma estratégia integrada no campo da conservação do patrimônio cultural.
🔗 Acesse a tese completa aqui:https://teses.usp.br/teses/disponiveis/85/85131/tde-09042026-084912/

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